Tenente-coronel réu por feminicídio de soldado passa por interrogatório

Tenente-coronel e soldado Gisele | Reprodução
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da soldado Gisele Santana, passa por interrogatório no Fórum da Barra Funda
O interrogatório do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos, está marcado para ocorrer nesta quinta-feira, às 13h. O militar responde pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, baleada na cabeça em fevereiro, além de fraude processual. Preso desde 18 de março, Geraldo Leite Rosa Neto nega ter cometido o crime. O ato será realizado de forma presencial no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista.
Estarão presentes, além de Geraldo Leite Rosa Neto, o advogado de defesa Eugênio Malavasi, a juíza do caso Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, da 5ª Vara do Júri da Capital, a promotoria e o advogado José Miguel Júnior Silva, representante da família de Gisele. O procedimento foi adiado por três vezes pelo TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo). Inicialmente previsto para 3 de julho, o interrogatório sofreu alterações após a defesa do tenente-coronel solicitar a complementação do laudo pericial realizado pelo Instituto de Criminalística, e a perita responsável pedir mais tempo para concluir o documento. Para a família de Gisele, os sucessivos pedidos foram interpretados como táticas para que o caso caísse no esquecimento. Geraldo Leite Rosa Neto poderá permanecer em silêncio e optar por não responder às perguntas, caso deseje.
O direito está previsto no Código de Processo Penal e, conforme a legislação, a ausência de respostas não poderá ser interpretada em prejuízo da defesa nem influir no convencimento da juíza. O interrogatório ocorre após o encerramento da fase de oitiva das testemunhas, concluída no início de julho. Ao todo, 30 pessoas foram ouvidas, entre depoentes de acusação e de defesa. A previsão inicial era de 40 testemunhas, mas a defesa do réu abriu mão de ouvir algumas delas. O UOL apurou que, entre as 21 testemunhas de acusação que prestaram depoimento nos três primeiros dias de audiência, apenas uma fez declarações com a presença do tenente-coronel na sala. Ao término do interrogatório, a juíza decidirá se pronunciará o réu, ou seja, se ele será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri. Em caso positivo, a defesa poderá recorrer da decisão, caso deseje.
Gisele foi atingida por um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, a morte foi constatada às 12h04 do mesmo dia. Em depoimento, Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que havia comunicado a Gisele sua intenção de se separar. Segundo ele, disse que ainda a amava, mas que a separação seria melhor porque o relacionamento não estava funcionando. De acordo com sua versão, após a conversa, a esposa se levantou de forma "exaltada", mandou-o sair do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado a toalha para tomar banho em seguida. Um minuto após entrar no banho, o tenente-coronel declarou ter ouvido um barulho, que julgou ser uma porta batendo.
Ao sair do cômodo, teria se deparado com Gisele caída no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo desembargador. A mãe da vítima, por sua vez, disse à polícia que o relacionamento da filha com Geraldo Leite Rosa Neto era "extremamente conturbado". Ela afirmou que o tenente-coronel era abusivo e violento, controlava o comportamento da filha e a cobrava rigorosamente para realizar diversas tarefas domésticas.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado, mas foi alterado pela Polícia Civil para "morte suspeita" após o depoimento da mãe da vítima. A ocorrência foi investigada pelo 8º Distrito Policial (Brás) e pela Corregedoria da Polícia Militar. O corpo de Gisele foi exumado no dia 6 de março e submetido a nova perícia e exames complementares. O laudo apontou que o corpo da soldado apresentava "lesões contundentes" na face e na região cervical provocadas por pontas de dedos, além de escoriação compatível com pressão de unhas. Mensagens extraídas do celular de Geraldo Leite Rosa Neto revelaram episódios de ofensas, humilhações e violência física praticadas contra a esposa. Em um dos textos, o tenente-coronel descreveu para Gisele o que considerava um relacionamento ideal, se autoelogiou e afirmou tratá-la como "todo macho alfa trata a sua esposa".
Geraldo Leite Rosa Neto também é alvo de processo administrativo na Polícia Militar, denominado Conselho de Justificação, que define a necessidade de perda de posto e patente. O futuro do acusado na corporação será decidido por três coronéis no âmbito desse conselho. Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, disponível 24 horas por dia, inclusive no exterior, de forma gratuita. O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008, pelo Disque 100, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pela página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). Vítimas em situação de risco podem solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha.