Dorli Kamkhagi: "Relações tóxicas na maturidade''

Dorli Kamkhagi: "Vamos falar de relações tóxicas na maturidade''
Relações que causam sofrimento podem estar ligadas a experiências do passado e à repetição de padrões que dificultam escolhas mais saudáveis na maturidade
Muitas vezes percebo, em meu trabalho na clínica, o quanto as pessoas ainda estão ligadas, de formas muito fortes, a relações que muitas vezes deixaram de fazer parte de suas vidas.
Entendemos, como psicanalistas, que as memórias e lembranças do passado ficam guardadas em nosso inconsciente e, muitas vezes, surgem por meio de sonhos, lapsos e repetições de sentimentos que ficaram trancados nos portões do passado. Em outras pessoas, podem surgir como manifestações de angústias que, muitas vezes, levam a um adoecimento.
Mas o que percebo em muitas pessoas que adentraram a maturidade é uma compulsão a terem relações tóxicas. Essas vivências tão dolorosas acabam levando a um sentimento de não se sentirem suficientemente boas e, portanto, de não merecerem o amor e o respeito. Em alguns casos, isso é algo que ficou guardado de relações muito anteriores, como família e amigos, e que acaba se constituindo em uma relação onde não existe uma fala e um lugar de respeito.
Por que será que alguém que já chegou a um momento de sua vida em que pode fazer escolhas saudáveis precisa aceitar relacionamentos perversos? Por que precisamos ter amigos que nos desrespeitam e repetem o bullying da adolescência?
Será que, em nome de pertencer e de achar que somos “queridos e especiais”, precisamos continuar com relacionamentos que nos desrespeitam?
Cada vez mais, quando escuto pacientes me trazerem casamentos que já deixaram de existir, onde se tornaram invisíveis, me vem a questão freudiana da compulsão à repetição.
O que seria essa necessidade de repetirmos aquilo que nos faz mal, que não nos deixa crescer e que nos torna escravos de relações tão nocivas?
Podemos pensar que os preços que se pagam para ser “supostamente amado” são considerados válidos enquanto não entendermos que nossas dores e amores do passado, assim como nossa história, podem ser ressignificados. Dessa maneira, vamos elaborando a criança ferida e abandonada que precisa ser tratada, para tornar-se um adulto com escolhas saudáveis.