
Carteira de trabalho e desemprego | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
A recente pesquisa "Retratos da Sociedade Brasileira: visão da população sobre o mercado de trabalho", divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), revela uma forte preferência dos brasileiros por empregos com carteira assinada. O estudo, em sua 67ª edição, mostra que mais de um terço (36,3%) dos trabalhadores que buscaram novas oportunidades nos 30 dias anteriores à pesquisa consideram o regime CLT como a opção mais atrativa no mercado de trabalho.
A pesquisa indica que apenas um em cada cinco trabalhadores procurou ativamente uma nova colocação no período analisado. Entre aqueles que buscaram novas oportunidades, o emprego formal regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) destacou-se como a preferência predominante, especialmente entre os jovens em início de carreira.
Além do regime CLT, outras modalidades de trabalho também foram citadas pelos participantes da pesquisa como alternativas de interesse. Trabalho autônomo foi mencionado por 18,7% dos entrevistados, representando a segunda opção mais atrativa após o emprego formal. Emprego informal apareceu em terceiro lugar nas preferências, sendo citado por 12,3% dos trabalhadores que buscaram novas oportunidades. Trabalho autônomo por meio de plataformas digitais foi apontado por 10,3% dos entrevistados, indicando o crescimento dessa modalidade, embora ainda seja vista principalmente como fonte complementar de renda.
Abertura do próprio negócio surgiu como opção para 9,3% dos participantes, demonstrando o interesse pelo empreendedorismo. Contrato como pessoa jurídica foi a alternativa menos citada entre as principais, com apenas 6,6% de preferência.
Claudia Perdigão, especialista em Políticas e Indústria da CNI, explica que apesar do surgimento e crescimento de novas modalidades de trabalho no país, o emprego formal ainda é visto como sinônimo de estabilidade e segurança. "A pesquisa revela que, apesar dessas novas modalidades de trabalho estarem surgindo e crescendo no país — como, por exemplo, os empregos autônomos vinculados a plataformas digitais — o trabalhador ainda pensa na estabilidade e nas condições vinculadas ao emprego formal, ao emprego CLT, justamente porque ele traz estabilidade e proteção social ao trabalhador", afirma.
A preferência pelo regime CLT é ainda mais expressiva entre os jovens. O estudo mostra que 41,4% dos brasileiros de 25 a 34 anos que estavam empregados e buscaram trabalho no mês anterior à pesquisa indicaram as vagas com carteira assinada como as mais atrativas. Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse índice foi de 38,1%, ambos superando a média geral de 36,6%.
Para Claudia Perdigão, essa tendência está diretamente relacionada ao início da trajetória profissional. "Entre os mais jovens, existe uma clara preferência por empregos formais. Isso está vinculado à necessidade de estabilidade, principalmente no início da carreira, em que essa pessoa ainda está construindo o currículo", ressalta a especialista. O caso de Rafael Felipe Martins, líder de logística de 33 anos, exemplifica essa tendência.
Trabalhando anteriormente com carteira assinada em uma empresa do setor hidrometalúrgico em Santo André (SP), ele decidiu buscar novas oportunidades visando melhorar sua remuneração, mas priorizando o regime CLT. "Eu buscava novas oportunidades no mercado de trabalho, nesse segmento da logística mesmo, com uma remuneração mais alta e um pacote de benefícios mais atrativo, priorizando o regime de CLT, que me oferece mais segurança e estabilidade. Depois de mais ou menos um mês procurando essa nova oportunidade, eu consegui", relata.
A pesquisa também revela que, embora um em cada dez trabalhadores (10,3%) considere atrativas as oportunidades de trabalho autônomo em plataformas digitais, como motorista ou entregador por aplicativo, para a maioria dos interessados esse tipo de atividade é visto apenas como fonte complementar de renda. Somente 30% dos que demonstraram interesse nesse modelo consideram as plataformas digitais como principal meio de sustento.
O estudo da CNI ainda aponta que 95% dos trabalhadores afirmaram estar satisfeitos com a ocupação atual, sendo 70% muito satisfeitos. Essa satisfação é observada entre empregados, empregadores e trabalhadores autônomos. Apenas 4,6% declararam insatisfação, dos quais 1,6% se disseram muito insatisfeitos. Esse alto índice de satisfação ajuda a explicar a baixa mobilidade no mercado de trabalho brasileiro.
Entre os trabalhadores ocupados, apenas 20% buscaram uma nova colocação nos 30 dias anteriores à pesquisa. "Essa satisfação elevada com a ocupação atual desestimula o trabalhador a buscar novas ou outras oportunidades. A busca por novas ocupações acabou sendo mais alta entre pessoas mais jovens que tendem, de fato, a apresentar uma maior inquietude dentro do mercado de trabalho, principalmente por estarem em uma fase de consolidação das suas carreiras", explica Claudia Perdigão.